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Um Príncipe em Nova York: Os 30 anos de lançamento da comédia com Eddie Murphy que quebrou barreiras
Por João Vitor Figueira — 29/06/2018 às 15:55
Atualizado
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Antes de Wakanda, a nação africana fictícia mais famosa do mundo foi Zamunda.

O herdeiro do trono de uma opulenta nação africana que não foi colonizada aprende que a vida é mais difícil do que pensava e reflete sobre suas próprias tradições. Poderia ser Pantera Negra, mas é Um Príncipe em Nova York, longa-metragem que estreou nos cinemas no dia 29 de junho de 1988, há 30 anos.

Eddie Murphy estava em um grande momento de sua carreira, graças à popularidade de seus números cômicos anos antes no programa de TV humorístico Saturday Night Live e em filmes como 48 Horas (1982), Trocando as Bolas (1983) e Um Tira da Pesada (1984), que garantiram a ele um bom contrato e certa liberdade criativa na Paramount Pictures para investir em outros projetos mais ambiciosos, como uma rara comédia romântica estrelada por atores negros.

Na trama, Murphy interpreta o Príncipe Akeem, herdeiro aparente da coroa de Zamunda, um belo país que no longa-metragem parece amalgamar características do imaginário coletivo de todo o continente africano. Logo no início do filme, o diretor John Landis apresenta a nação fictícia apostando no simbolismo de força dos animais selvagens, na exuberância inegável da natureza e no retrato de uma cultura que valoriza tradições. Mesmo nos muros de seu castelo, Akeem não está feliz. Seu pai, o Rei Jaffe Joffer, quer que o jovem príncipe tenha um casamento arranjado. O monarca é interpretado por James Earl Jones, voz de Darth Vader na franquia Guerra nas Estrelas. Desgostoso da decisão de seu pai, Akeem busca encontrar uma esposa que não saiba de sua condição de nobre e que o ame por sua personalidade, não por conta de seu dinheiro e poder.

Paramount
Eddie Murphy e Arsenio Hall em Um Príncipe em Nova York.

Em uma versão da busca pelo sonho americano, Akeem viaja para a cidade de Nova York com Semmi, seu amigo, assistente e confidente interpretado por Arsenio Hall, que, assim como Murphy, chamava a atenção por seu talento como comediante de stand up. Recém chegado na Big Apple, Akeem finge ser um pobre estudante estrangeiro vindo de uma família de criadores de cabra, para o desespero de Semmi, que preferia passar sua temporada americana em luxuoso hotel ao invés da espelunca escolhida pelo príncipe em uma perigosa vizinhança do distrito do Queens. De quase-rei, o príncipe passou a trabalhar em uma rede de fast food para se aproximar de Lisa (Shari Headley), uma mulher que mexeu com seus sentimentos.

Com diálogos inspirados, espaço para improvisações brilhantes encabeçadas por Murphy e um figurino marcante (vide os fãs que foram vestidos de Akeem e Semmi para sessões de Pantera Negra), Um Príncipe em Nova York foi mais do que uma comédia de sucesso. A produção quebrou barreiras para a representação de personagens negros em Hollywood, questão que é discutida até hoje por quem pensa raça e indústria cinematográfica. Trata-se de um raro filme de sucesso protagonizado por afro-americanos que não enfrentam uma situação de opressão. A história aqui não é movida por escravos em um drama de época, nem evoca a luta por direitos civs ou explora unicamente a falta de oportunidades nas periferias — temas e abordagens de suma importância, claro, mas que não devem excluir outras propostas (incluindo a possível sequência).

Rixa na produção

Com a carreira em ascensão, Murphy desenvolvia seus projetos na Paramount na divisão "Eddie Murphy Productions", sinal de seu prestígio no estúdio. Para Um Príncipe em Nova York, o comediante projetou no filme uma oportunidade para trabalhar com seu amigo Arsenio Hall com base em uma ideia supostamente original dele (mais informações no decorrer da matéria) que foi roteirizada por David Sheffield e Barry W. Blaustein, que trabalharam com o ator no Saturday Night Live.

Para a direção, Murphy convocou o cineasta John Landis. Os dois trabalharam juntos em Trocando as Bolas, quando o ator estava apenas em seu segundo trabalho para os cinemas, mas a familiaridade entre as duas figuras não evitou que um conflito de egos se instaurasse no set. Pressionados por uma agenda muito apertada, já que as filmagens começaram apenas seis meses antes do filme chegar aos cinemas, Murphy e Landis tiveram dificuldades para lidar bem um com o outro — para dizer o mínimo.

John Landis e Eddie Murphy.

"Ele me dirigiu em Trocando as Bolas quando eu estava começando, era um garoto, mas ele continuava me tratando como um garoto cinco anos depois durante Um Príncipe em Nova York. E eu contratei ele para dirigir o filme!", disse o ator em entrevista para a revista Rolling Stone em 1989. O comediante relatou que intencionava dirigir, ele mesmo, o filme, mas deu uma chance para o diretor que não estava em um bom momento na carreira. Murphy disse que eles não chegaram às vias de fato durante as filmagens, mas tiveram um confronto que envolveu empurrões.

Landis usou palavras pouco moderadas, para dizer o mínimo, para falar sobre a experiência. "O cara em Trocando as Bolas era jovem, cheio de energia, curioso, revigorado e ótimo", disse o realizador. Quando reencontrou o ator nos sets, o diretor considerou que o astro tinha se tornado "o babaca mais desagradável e arrogante do mundo". Anos depois a dupla trabalhou novamente em Um Tira da Pesada III (1994). Trégua momentânea ou sinal de que fizeram as pazes?

Múltiplos personagens

Um Príncipe em Nova York marcou a primeira vez em que Eddie Murphy assumiu diversos personagens em um mesmo filme, prática que ele viria a repetir com resultados variados em outros filmes dali em diante, além de inspirar atores como Tyler Perry (franquia Madea) e Martin Lawrence (franquia Vovó...Zona) a estrelar seus próprios filmes como crossdressers .

Esse tipo de performance em um filme viria a se tornar uma marca registrada de Murphy, que viveu mais de um personagem em produções como Professor Aloprado (1996), Um Vampiro no Brooklyn (1995), Os Picaretas (1999) e Norbit (2007).

Montagem por ComicsOnline.com
Os personagens secundários Eddie Murphy (os três de cima) e Arsenio Hall (na linha de baixo) em Um Príncipe em Nova York.

Além do papel de Príncipe Akeem, o comediante interpreta Clarence, dono da barbearia; Saul, o personagem judeu na barbearia; e o personagem Randy Watson, cantor do grupo Sexual Chocolate. Arsenio Hall também viveu quatro papéis no filme: Semmi, Morris (outro barbeiro), o Reverendo Brown e uma moça que encontra Akeem numa boate.

Ao viver um personagem branco (Saul) no longa-metragem, Murphy seguiu uma sugestão de Landis, que ficou revoltado ao ler um artigo sobre comediantes judeus que faziam apresentações com blackface (ato de pintar o rosto de preto para reforçar estereótipos fenotípicos de pessoas negras).

Vencedor de sete estatuetas no Oscar, Rick Baker cuidou do trabalho de maquiagem do filme. Seu trabalho na criação do personagem Saul ficou tão bem feito que executivos da Paramount não reconheceram Eddie quando o ator estava caracterizado em uma visita ao set.

Lançando carreiras

Além de servir como uma produção que consolidou o sucesso de Eddie Murphy, Um Príncipe em Nova York ajudou a promover carreiras de atores no início de suas trajetórias profissionais nos cinemas. Cuba Gooding Jr., anos antes de vencer o Oscar de melhor ator coadjuvante por Jerry Maguire (1996), fez seu primeiro trabalho neste filme. Outro estreante presente no elenco da comédia foi Vondie Curtis-Hall, que posteriormente foi indicado no Emmy e SAG Awards. Natural do Queens, Shari Headley, que vive Lisa, interesse romântico do Príncipe Akeem, também fez seu primeiro trabalho nos cinemas neste longa-metragem.

Paramount
Cuba Gooding Jr. e Eddie Murphy em Um Príncipe em Nova York.

Samuel L. Jackson também faz uma ponta no filme, no papel de um assaltante. Era apenas o quinto longa-metragem para os cinemas (desconsiderando telefilmes, séries de TV e uma aparição não creditada como figurante em O Exterminador) do ator que logo viria a ser mundialmente conhecido.

Bilheterias

Terceiro filme de maior arrecadação nos Estados Unidos no ano de 1988, Um Príncipe em Nova York ficou atrás apenas de Uma Cilada Para Roger Rabbit (com o atrativo do hibridismo entre animação e live action) e Rain Man (que viria a vencer o Oscar de melhor filme no ano seguinte) nas bilheterias americanas em seu ano de lançamento. Orçado em US$ 39 milhões, o filme arrecadou US$ 128 nos EUA e US$ 288 globalmente.

Recepção modesta da imprensa e polêmica com Spike Lee

Apesar de ter caído na graça do público e de alguns setores da imprensa à época de seu lançamento, Um Príncipe em Nova York também foi recebido como um filme pouco criativo, irritante e até vazio por alguns críticos. O roteiro foi um dos aspectos mais dissecados. O The New York Times, classificou a comédia como "inconsistente" e "apenas levemente engraçada". Para o The Hollywood Reporter, "Um Príncipe em Nova York é o equivalente fílmico de usar uma Maserati para ir na mercearia de esquina" que "desperdiça" os talentos de Murphy e Landis. Para a Variety, "o filme é um teste para os fãs leais" do ator e comediante.

Paramount
Eddie Murphy e Arsenio Hall em Um Príncipe em Nova York.

De todos os textos, nenhum incomodou tanto Murphy quanto o escrito pelo polêmico crítico Armond White no jornal The City Sun. Para o jornalista, o filme representa uma "traição" à cultura, história e política das pessoas negras. Como resposta, o ator comprou um espaço publicitário no jornal. "A falta de cortesia por parte deste homem negro para com a vida e o trabalho de outro homem negro foi tão vergonhosa, superficial e perversa que merece uma resposta pública", disse o texto do ator.

O sucesso comercial de Murphy também atraiu as críticas do engajado Spike Lee. Para o diretor, o ator deveria usar sua influência para obrigar a Paramount a contratar executivos negros para cargos importantes dentro do estúdio. Entretanto, o cineasta parece ter reconsiderado sua opinião um ano depois do lançamento de Um Príncipe em Nova York, quando lançou o clássico Faça a Coisa Certa (1989). No livro Do the Right Thing: A Spike Lee Joint, Lee disse que considerava a produção estrelada pelo humorista foi "um esforço sério de Eddie Murphy para fazer um filme sobre pessoas negras".

"Filme para negros"?

Marco histórico cultuado até hoje, boa parte do sucesso do filme nas bilheterias se deve ao fato de que o filme teve apelo com um público amplo e conseguiu escapar de ser categorizado como um "filme para negros" pelas audiências brancas da época. A Paramount Pictures temia que o projeto enfrentasse a resistência de determinados setores da sociedade, mesmo com a popularidade de Eddie Murphy em alta e por isso não promoveu sessões para a imprensa antes do lançamento do longa-metragem nos cinemas. "Eles ponderaram muito se o filme poderia se sair bem ou não porque eles o consideravam um filme para negros", afirmou a professora de estudos de cinema Racquel Gates, da Universidade da Cidade de Nova York, em entrevista para o jornal The Washington Post. Para ela, Um Príncipe em Nova York poderia ter apresentado números ainda melhores nas bilheterias. "Temos sempre de ser cautelosos ao julgar o sucesso de um filme, especialmente o de um filme com negros, a partir dos números de bilheteria porque os estúdios são famosos por distribuir menos filmes com negros no elenco e não promovê-los."

Paramount
James Earl Jones em Um Príncipe em Nova York.

John Landis, diretor do filme, conta que o crossover de audiências do filme o faz pensar que conseguiu atingir seu objetivo como cineasta neste projeto. "Eu percebi que era a oportunidade de fazer algo muito importante que ninguém iria notar", disse ele em 2011, em entrevista para a Bomb Magazine. "O filme foi tão bem sucedido que ninguém se refere a ele como um filme para afro-americanos. Nunca. Ainda assim, o filme só tem três papéis para personagens brancos. Todos os outros papéis com falas são de afro-americanos."

Plágio

O legado de Um Príncipe em Nova York segue mais forte do que nunca após 30 anos, sendo alvo de novas leituras e inspirando fãs, mas o projeto esteve no meio de um imbróglio judicial depois de chegar aos cinemas. Em 1990, o humorista Art Buchwald alegou que a Paramount o contratou em 1982 para escrever o tratamento de um filme sobre um membro da família real de um país da África que viaja aos Estados Unidos em visita oficial de Estado. A Paramount chegou a sondar John Landis e Eddie Murphy para o projeto que teve os títulos provisórios de It's A Crude, Crude World e King for a Day. Depois enfrentar de problemas para começar as filmagens, a Paramount descartou o tratamento de Buchwald em 1985. Dois anos depois, começou o desenvolvimento de Um Príncipe em Nova York, com o mesmo protagonista e cineasta do filme descartado. Por conta disso, a Warner desistiu de fazer um filme com o roteiro de King for a Day. Buchwald venceu o processo contra a Paramount por quebra de contrato e recebeu indenizações financeiras. Até hoje, a versão oficial é que a ideia original para o longa-metragem foi mesmo de Murphy, indepedente das alegações de Buchwald.

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